Saturday, 28 August 2010



PhotoZone by Gallows-bird, Alexey Lobur

Amei-te tanto, mas tanto
que depois de ti a minha alma fendeu-se
e incrustou-se ao meu coração
como as marcas das margens do ribeiro violento
que corre para alimentar a mãe.

Fiquei estragado para o amor,
fétido como uma couve podre à quinta-essência.
Desenraizado como pinheiro no deserto,
poupei toda a água do mundo
e todas as horas das madrugadas sem ti
até chegar onde não sei enterrar o teu nome,
o meu amor…
essa coisa funda, abissal
como a raia dos nove círculos de Dante
que enche cada recanto de mim...»
— dizia o bardo cego, sem olhos
arrancados à raiz de raivoso desejo
de não ver ninguém mais do que Ela...

Coxeia pelas bermas da vida
arrastando um caixão de rosas de inverno
com o nome dEla encriptado
pelas lágrimas inominadas que chorastes
nos meus olhos.

E tu? Nunca foste escandalizado pelo amor
que crucifica?
--- Lisboa, 26-08-2010
Virgílio Brandão

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